Terra de Deitados _ Documentário Cênico sobre a Morte na Vida da Grande Cidade

20 junho 2016

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Deitados e desiguais

Na história de São Paulo, há cifras e gráficos mostrando sua explosão demográfica em meados do século passado. Em pouco tempo, a cidade se tornou o principal centro econômico do país. Os arranha-céus aqui cresciam como plantas em solo fértil. Planilhas e estatísticas são capazes de mostrar em quais bairros se concentravam imigrantes e retirantes que para cá fugiam da guerra ou da falta de trabalho no campo. Os números, porém, não trazem a vida de cada pessoa que representam.

Terra de Deitados é a história de uma família que troca a roça pela cidade grande que se avista da entrada do cemitério da Vila Mariana. Chegaram quatro anos antes do aniversário de quatrocentos anos de São Paulo. Aqui já havia cinema, teatro moderno, museus de arte, clubes de fotografia e uma universidade de padrão europeu. Chique era caminhar pela rua Augusta e tomar chá na loja Mappin. Intelectuais e artistas frequentavam bares próximos à biblioteca Mário de Andrade. Avenidas eram invadidas por carros e trens elétricos. São Paulo vivia uma espécie de Belle Époque tardia.

Francisca, a matriarca de Terra de deitados, não sabia de nada disso, mas também não lhe fazia falta. Suas urgências eram outras. Desceu com o marido e cinco filhos na Estação da Luz e de lá foi morar na Vila Prudente, em uma casa de dois cômodos. A rua era de terra e não tinha energia elétrica. Mas havia uma fábrica não muito longe, e com ela a esperança de vida melhor com o trabalho do marido e dos filhos. Na época, o rádio a pilha era o principal e mais popular meio de comunicação, que trazia notícias e embalava sonhos.

A trajetória da família de Francisca mescla-se com a cidade, a indústria, o rádio e a morte. O que a Companhia Teatro Documentário propõe é uma experiência que atravessa esses totens. É um teatro que convida o público a olhar através de frestas, rachaduras, brechas, fendas e vãos. Detalhes escapam como atos falhos e verdades sólidas desmancham-se no ar. É também um teatro de falas hesitantes. Sujeitos que se dividem apesar de saberem a verdade. A realidade é difícil de suportar e os opressores sempre parecem maiores que nós. Atravessados pela dor, é melhor silenciar e deixar as dúvidas para lá. É uma maneira de morrer em vida.

Mas, diferente do que diz o senso comum, a morte não iguala a todos. Como Antígona, os atores-documentaristas deste processo caminham na contramão, vasculham documentos e memórias, reconstroem narrativas para poder proporcionar um luto digno a quem foi explorado até dentro do caixão. Aquém e além do Estado ou de qualquer outro poder, Terra de deitados é a construção de uma poética da justiça, mesmo que contrária às leis estabelecidas.

Não cabe julgar. É uma obra que se apreende com o que não se torna palavra. O que vale a pena é entrar no jogo que se inicia antes mesmo da peça começar. Descendo as ruas tortas do cemitério, descobrindo e deslumbrando-se com o que está ali, o corpo e a cidade tornam-se veículos para uma transcendência que não precisa ser religiosa para ser transformadora. Expiação que também é política, Terra de deitados é um encontro de vida.

Por Ferdinando  Martins (Prof. Dr. da Universidade de São Paulo e Diretor do Teatro da USP/TUSP).