Como se pode brotar poesia na casa da gente ?

7 dezembro 2015

preterito imperfeito 2

Ao examinarmos algumas de nossas práticas como ações culturais em teatro – que propositalmente pretendem intervir no tecido social e, ao mesmo tempo, alimentar nossa criação artística –, no projeto “Como se pode brotar poesia na casa da gente?”, talvez as mais marcantes refiram-se as intervenções cênicas de caráter documental realizadas nas regiões leste, norte, sul e oeste da Cidade, dentro de residências de pessoas previamente entrevistadas, chamadas pela companhia de “documentados”, dispostas a abrir suas casas para apresentações teatrais.

contação 1new doc 2_2 (1)As  interferências da pesquisa Como se pode brotar poesia na casa da gente?configuram -se no encontro simbólico com a cidade. As ações desse projeto foram baseadas em encontros de diversas naturezas, todos eles alvo de nossa documentação e posterior alimento da encenação Pretérito Imperfeito.

Para conseguirmos tal empreitada, tivemos a parceria de três diferentes grupos teatrais em cada uma das zonas geográficas de São Paulo, nas sedes teatrais das companhias parceiras (Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes – Zona Leste; Uzinominados– Zona Norte; Companhia  Antropofágica – Zona Oeste; Brava Companhia – Zona Sul), ministramos o que divulgamos como “vivência teatral para comunidade”. Em caminhadas nas imediações da sede desses grupos, em explorações cotidianas, nos fortuitos esbarrões na padaria e/ou bares, aproveitávamos para divulgar a vivência, na verdade uma espécie de oficina na qual, por meio de jogos teatrais, enfocamos o ato de contar histórias.

contaçãoAssim que um dos participantes se predispunha a abrir sua casa, marcávamos um dia para um encontro todo registrado audiovisualmente. Essa dinâmica nos permitiu conhecer “geograficamente” os bairros da região e,principalmente, um pouco de seus moradores. Ao mesmo tempo, além de estimular nos participantes a redescoberta da importância do ato de narrar e compartilhar experiências em situações coletivas, um workshop sobre as relações da memória com o ato de narrar foi oferecido, evento esse que também poderia suscitar outros participantes predispostos a acolher nosso processo em suas residências. Visitar casas, encontrar pessoas, descobrir discursos. Fazer deles nosso material cênico. Quando encontrávamos um participante do workshop disposto a abrir sua casa para a investigação do grupo, a Companhia Teatro Documentário entrevistava não apenas ele, mas todos que moravam na residência em questão. Como mencionamos, o eixo das entrevistas foi a dinâmica da residência e como os moradores dialogam com a cidade para além dos muros. Em seguida, tínhamos em média quinze dias para construirmos, a partir dos depoimentos recolhidos, uma intervenção cênica de caráter documental apresentada na própria casa e/ou apartamento, onde o espaço da residência, os objetos e móveis eram ressignificados, numa perspectiva de explorarmos cenicamente o que havia sido documentado por nós.

Na Zona Norte de São Paulo, encontramos um senhor chamado Guilherme que sofreu dois AVCs (acidente vascular cerebral) e tem medo de se esquecer da história da rua, da loja de relógios do Seu Joaquim, das crianças brincando. Na vivência ele nos disse: “Quero que vocês venham ao meu apartamento para registrar a memória de uma Zona Norte que não existe mais”. Tínhamos nossa segunda residência! Numa cidade que está perdendo a memória, a intervenção no apartamento de Guilherme e Sônia questionou um sistema que, para cada vez obter mais lucro, destrói aquilo que ele mesmo ergueu. O Jardim São Paulo, onde Guilherme passou boa parte de sua infância, sofreu um AVC: o mercado imobiliário não poupou casas, praças, vilas.

Ao examinamos algumas de nossas práticas como ações culturais em teatro – que propositalmente pretendem intervir no tecido social e, ao mesmo tempo, alimentar nossa criação artística –, no projeto em questão (Como se pode brotar poesia na casa da gente?), talvez as

mais marcantes refiram-se a essas intervenções cênicas de caráter documental realizadas nas regiões leste, norte, sul e oeste da Cidade, dentro de residências de pessoas previamente entrevistadas, chamadas pela companhia de “documentados”, dispostas a abrir suas casas para apresentações teatrais.

Na Zona Oeste, mais precisamente no bairro de Pinheiros, conhecemos uma senhora mineira proprietária de um pensionato amarelo e de três celulares de operadoras diferentes. Já na Barra Funda, encontramos Paulinho, um meni-no sem lugar, que dormia no Terminal. Na primeira, pudemos fazer uma inter-venção na residência. O segundo desa-pareceu ao longo do processo, mas foi trazido como lembrança dentro de nossa encenação final.

Na Zona Sul, a investigação percorreu o Jardim Macedônia. Os docu-mentados foram Paulo, Bete, Micael e Max, este último, integrante da Brava Companhia. A intervenção revelou uma família que tem o trabalho como con-dição primeira. Uma família que não pode dormir porque precisa trabalhar. Um tempo que foi roubado e já não pode ser compartilhado.

Assim, quando enfocávamos as relações dos moradores com o espaço/ residência e o espaço/cidade e apre-sentávamos a intervenção no próprio espaço/residência, procurávamos dar novos significados à moradia, à rua e à própria cidade que, vistas sob uma ótica diferente da usual, libertas da prisão da monossemia, em última aná-lise, ganharam outro sentido de exis-tir. Vera, Paulinho, Guilherme, So-nia, Max, Bete, Paulo, Ivanil, Malva, ousaram abrir as portas para o encontro. Por consequência, para nós, essas pessoas saíram da abstração na qual se costuma colocar o “cidadão comum” e se presentificaram em toda sua potência de significação.

Para essas apresentações foram convidados vizinhos, amigos, familia-res, numa ação com vistas a estimu-lar a redescoberta da casa como espaço de interação e troca entre pessoas. A presença do documentado assistindo à intervenção confere ainda outro cará-ter ao que é apresentado.

Salientamos, porém, que nossa proposta de investigação está longe de um tratamento que preze apenas pela apresentação dos dados documentais.

Durante a seleção e articulação desses dados na construção discursiva, queremos que sejam encontrados múltiplos sentidos, numa resignificação daquilo que nos é trivial, óbvio.

Assim, ao documentar as relações dos moradores com o espaço residência e o espaço/Cidade e apresentar a intervenção no próprio espaço/residência,procuramos dar novos significados à moradia, aos objetos presentes nela.

Em uma cena, por exemplo, na casa da Sra Malva e o Sr. Ivanil, moradores  da Cidade Patriarca, bairro da Zona Leste de São Paulo, os atores na cozinha narram uma viagem feita pelo casal às Cataratas do Iguaçu, diante da platéia e dos próprios documentados. Nesse momento vindo do banheiro, cujo vidro abre-se para a cozinha, escuta-se o som do chuveiro evocando o som de cataratas. O chuveiro visto sob uma ótica diferente da usual, liberto da prisão da monossemia, em última análise, ganhou novo significado.

Durante a apresentação na residência da Zona Norte, o Sr. José Guilherme, por exemplo, diante do material exposto, ficou emocionado e conversou com os atores e a plateia ainda durante a execução da intervenção. Ele comentava o que sentia, ratificava o que os atores narravam e inclusive complementava as informações dentro da cena, tornando o trabalho de fato documental, já que, o próprio documentado presente, interferia também em presença cênica de maneira espontânea, natural e absolutamente teatral.

A própria intervenção dos documentados contribuiu para trazer o caráter documental à cena, fato esse muito importante à proposta, “pois de nada adianta a intencionalidade em documentar o trabalho com e sobre os dados de não ficção – inclusive os ima-géticos – (…) se o espectador, protagonista da experiência artística, não percebe o que frui como documentário. (Soler em Revista Sala Preta_ PP-GAC/ USP. disponível em:http://www. revistas.usp.br/salapreta/article/ view/57547/60587)

Ao término da intervenção, ser-víamos um café para todos os convida-dos. Nesse momento, desenvolvíamos um trabalho que envolvia os estudos dos membros do grupo em relação a uma pe-dagogia do espectador. De maneira afetuosa e significativa, durante o café conduzíamos discussões a partir do que havia sido encenado. Esse processo se repetiu em cada uma das quatro regiões de São Paulo.

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