Mapear Histórias, ou como disse Guimarães, o real não está nem na chegada, nem na saída: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.

2 fevereiro 2016

rua

teatro doc quintalÀ medida que a pesquisa se concentrou na sede do Teatro Documentário, o trânsito pelo bairro da Bela Vista proporcionou maior diálogo com os nossos vizinhos extramuros.

Em agosto de 2011, fomos contemplados pela segunda vez (agora na décima nona edição) pela Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo e num processo natural nossas pesquisas transitaram da casa para a rua; a rua da casa da sede do Teatro Documentário
que a essa altura já acolhia muita gente interessada em ação artística.

As interências nesse projeto ocorreram justamente com os artistas parceiros e com os oficineiros frequentadores das oficinas de iniciação a linguagem de teatro Documentário, e foram realizadas nos estabelecimentos – Salão de Beleza Extravagance, Bar Casa do Nor-te Guaxinim, Brechó da Delourdes e do Luís, Transportadora Penna – localizados na rua onde fica a Casa do Teatro.

Novamente, os encontros ao longo do caminho foram de vital im-portância. Os representantes dos gru-pos parceiros (que trabalharam conosco no projeto anterior), atendendo aos nossos pedidos, ofereceram workshops abertos ao público em geral, mas destinados principalmente para a nossa vizinhança. Os workshops foram mi-nistrados por integrantes de diferentes grupos de Teatro que propuseram práticas artísticas com o intuito de desvendar geograficamente as imediações da Casa do Teatro Documentário no bairro da Bela Vista.

Teatro de rua ou Teatro na rua? Com essa questão, os integrantes da Brava Cia. lançaram uma série de proposições que percorriam os caminhos do jogo e do improviso. A todo tempo fomos estimulados a pensar em como iniciar, como sair de um jogo? Em subgrupos, chegamos a formulações em estabelecimentos. Um grupo, por exemplo, escolheu o Templo da Carne, restaurante localizado na Avenida Treze de Maio, cujos pratos têm valores altíssimos. O ponto alto da cena foi quando o grupo de atores perguntou para o funcioná-rio do estacionamento do restaurante: “Você já almoçou aí onde você traba-lha alguma vez?”. E ele com convicção afirmou: “Não”!

cartaz vertice 0Já com o coletivo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, em dois encontros distintos nosso desafio foi colocar a Bela Vista na lata! Construímos nossas pinholes, fotografamos e aprendemos a revelar no tempo e com as condições necessárias para captura da imagem. Na verdade, novamente a proposição consistiu num dispositivopara conversas com a vizinhança e numa maneira sutil de começarmos a nos apre-sentar. Vizinhos fotografados, inclusive, vieram até nossa sede para pegar a foto tirada. Com a Antropofágica, construímos instrumentos com objetos variados no workshop “Musicalização: o som da rua: o ouvido pensante”. E cantando uma música da esquerda italiana, “Bella Ciao”, saímos pelas ruas da Bela Vista. Oferecendo uma cena ou uma serenata composta por vozes e instrumentos inusitados, fomos nos apro-ximando ainda mais dos nossos futuros documentados. Com a vivência e o material teatral e audiovisual coletados, elaboramos uma série de pequenos documentários cênicos, compartilha-dos numa espécie de mostra intitulada Vértice – cartografias cênicas sobre e para Maria José. Vale ressaltar que em todas as cenas nos estabelecimentos, os atores da companhia contracenavam com os próprios documentados, dentro de jogos cênicos que permitiam à plateia conhecer as histórias da rua e do próprio lugar.

Além de fazer parte da nossa pesquisa estética e de configurarem elaborações teatrais, as ações motivavam a discussão sobre o fenômeno que está transformando as ruas em não lugares, ou seja, em espaços de passagem, de rápida circulação. A maioria das ruas enquanto espaço público já não propicia mais o encontro de pessoas, um ponto fundamental na formação e na ação entre moradores de um mesmo bairro. Para nós, quando a rua não é mais um lugar de vida social, seus olhos se fecham. Mas o que são, ou melhor, quem são os olhos da rua? São os donos e funcionários de padarias, mercearias, lojas, pequenos serviços que funcionam como “olhos atentos”, mais eficazes do que a iluminação pública. Exatamente aquelas pessoas que estavam em cena com a gente, personificando a vida que ainda resiste em nossa rua, a Maria José, e em outras das imediações. E como se dava a constatação? Por meio da presença.

Para isso, a plateia era convidada a entrar nos comércios, dentro dos quais atores e documentados a esperavam. Numa das cenas, Nelson (padeiro) e Natália (atriz) Eram dois pássaros pequenos: salpicando um pão, entoando um canto, esquentando um ninho abracadabra; era uma vez uma prisão que não era mais. Era assim a cena em que Nelson, baiano, ex-interno do Lar Transitório Batuíra e padeiro, juntamente com Natalia, paulistana, atriz, compartilhavam a feitura de pães e materialidades artísticas na Casa do Teatro Documentário.

Numa outra, Joventino (transportador) e Elaine (atriz) Eram dois pássaros sedentos: um morreu afogado, o outro secou malogrado: secaram solteiros. Era assim a cena onde Joventino, baiano, dono da Transportadora Penna, e Elaine, paulista, atriz, rememoravam seus (des) amores e seus esquecimentos, em meio às coisas/mercadorias abandonadas pelos seus donos no galpão da transportadora. A cena ocorria após a plateia ser “reapresentada” às ruas do entorno da transportadora por uma narrativa que impedia a visão de pontos turísticos narrados impelindo-a a experimentar ser ela própria coisificada.

Havia ainda a da Rose (cabelereira) e do Guga (ator): dois pássaros cansados: um de tanto voar pra seu ninho encontrar e o outro de tanto pela Julieta chamar… Dançaram um nos braços do outro, sonhando o encontro. Era assim a cena onde Rose, cearense, proprietária do pequeno salão de beleza Extravagance, contava pra plateia como foi sua chegada a São Paulo e tudo o que enfrentou para se estabelecer como comerciante na Bela Vista. Ao mesmo tempo, Guga, paulista, ator, confidenciava seu desejo de ser um Romeu.

Márcio e Fernando Eram dois pássaros certeiros, um querendo ser outro, querendo não ser incertos, se reconheceram. Era assim que Fernando, sergipano, violeiro, poeta e cantor da Toca do Guaxinim se apresentava junto a Márcio, paulista, ator, rememorando o que havia sido (ou não) o seu passado ainda presente.

Ainda nesse projeto, propusemos também duas intervenções que acabaram por não participar do Vértice. Num processo cênico com um tempo de experimentação expandido, surgiu uma parceria entre os Marcelos num requintado espaço para a escuta e as compras de longa duração. A experência vivida discutia questões de apego e de não apego aos bens materias. Os objetos possuem memória? Os seres humanos se tornam objetos? O objeto, ser humano ou não, ao ser restaurado, passa a ter outro valor? No bairro da Bela Vista, o estabelecimento comercial repleto de coisas por todos os lados se tornou uma metáfora para todos esses questionamentos na interferência “Quem foi sua avó.

Já na polifonia de vozes que acompanham as cores, os cheiros e os gostos ao ar livre, realidade e ficção se fundiram na Intervenção: “ Há algo de podre noreino da Dinamarca” num tempo com dia e horário delimitado. Hamlet,comerciantes e compradores se revezavam em atuações sincronizadas para nos deixar ver com lente de aumento a feira,Hamlet não é o protagonista da cena/feira, ele é um dispostivo que aponta para a realidade que nos é apresentada. O que existe por detrás dos indivíduos que trabalham ali? A história da feira se materializa através dos trabalhadores. A feira é a protagonista.